Jorge Manuel Pereirinha Fernandes Pires é um jornalista e escritor lisboeta, professor de filosofia e tradutor, que em novembro de 1995 lançou o livro “Um Futuro Maior”, sobre a trajetórioa do Madredeus, que então completava nove anos de existência. O livro, editado pelo Círculo de Leitores e pela Temas & Debates, encontra-se hoje esgotado. No trecho abaixo, extraído do primeiro capítulo do livro, Jorge P. Pires fala sobre o impacto que a obra do Madredeus causou em Portugal, quando de seu lançamento nos últimos anos da década de 1980.
“O pano não caíu, nem o silêncio se impôs bruscamente. Houve antes um suave crescendo nos últimos compassos, anunciando uma curva em direcção ao zénite. A janela de luz tornou-se então demasiado real, terrestre. Terminou a música, os músicos pousaram os instrumentos, levantaram-se das cadeiras e vieram à frente agradecer junto da cantora. Sorriem, entre si e para os outros. Felicitam-se uma vez ainda. O público, pela sétima noite consecutiva, levantou-se também e saudou de pé o espectáculo. São mais de mil, e há de todos. Os casais de gravata formal e vestido formal, lá à frente, logo atrás dos dignitários e dos representantes convidados para a sessão de hoje no centro cultural. Os velhos. Os novos, e os mais novos e os mais e menos ricos. As mulheres, os homens, as raças, os jornalistas. Alguns músicos conhecidos em várias tribos. Lá em cima, nos camarotes, mais casais janotas. Estão todos de pé, estão todos de igual, e se parecem emocionados, se estão emocionados, é porque essa é uma das funções dos espectáculos.
Afinal, encena-se para despertar no espectador as emoções e os sentimentos. Para que este os reconheça como verdadeiros e reconheça a presença deles em si. Para que, animado assim de alguma empatia para com a pureza dessa forma, ele possa tornar-se agente de um equilíbrio mais justo. E mais perfeito. E mais belo. No fundo, a ideia é a de que é possível transformar cada espectador num ser humano melhor, e empenhá-lo num processo em construção. Por isso se dizia, há muitos anos atrás, que os propósitos da arte são edificantes.
Mas não tenho grandes certezas acerca deste assunto, ou de outros. Sejamos realistas, práticos, porventura cínicos. À primeira vista, nenhuma das pessoas que aplaudem parece particularmente interessada em discutir conceitos estéticos, muito menos os de há duzentos anos. Sem eles sentem-se algo perdidos, com eles saberiam o que fazer?
O que farão amanhã?
Pensar que estes mais de mil serão pessoas diferentes quando regressarem lá fora, ao mundo de todos e ao universo de cada um, será talvez um sonho demasiado romântico. Há os que vieram por prazer, os que vieram por companhia; os do lazer, os do dever e os que admiram, sem outra atitude do que aquela que normalmente dedicam à vida. Também há os que aplaudem para manter o anonimato, os que depois acharão «interessante» em conversa corriqueira nas reuniões sociais, os que têm ideias sobre o assunto e hão-de fazer figura quando disserem que seria melhor de outra maneira…
Sejamos realistas, práticos. Será por hipótese a vida o que eles aplaudem, aquela representação da vida? Aquela manifestação de vida?
(…) É a última noite de uma semana em Lisboa, e a cidade natal teve de esperar desde a Primavera até agora (quase um novo ano!) para poder ver o espectáculo de «O Espírito da Paz», com a curiosidade aguçada pelas notícias sobre algumas das aventuras do grupo em terras longínquas - a Europa da cerveja e da manteiga, a Europa do vinho e do azeite, a Ásia dos mil odores, a orgulhosa Londres…
Os portugueses têm sentido alguma dificuldade em decidir como reagir a isto - não aos espectáculos (que continuam esgotados), à música ou aos discos (que continuam a vender-se), mas à notícia dessas campanhas e desses triunfos tão distantes que parecem algo irreais. Há muito tempo que ninguém viajava pelo mar alto, e por isso se esqueceu o que fazer com os navegadores. Mas essa hesitação tem também a ver com uma inédita inversão de termos, uma situação nova. Os navegadores de outros tempos tinham por missão regressar, e deslumbrar, com riquezas e delícias desconhecidas; e, ao invés, estes navegantes partiram levando consigo o tesouro que ninguém conseguira avaliar com precisão. Agora confirmou-se, é de facto um tesouro, mas o seu valor final continua a ser uma incógnita. Daí a estranheza: há algo que escapa neste regresso, talvez a visão inteira de todas as possibilidades em jogo.”