«Lisboa é uma cidade cheia de murmúrios do passado» 09 | 07 | 2007 08.35H
Teresa Salgueiro, voz da cidade que as canções do Madredeus eternizaram, amante persistente dos pátios de bairro onde Lisboa ganha uma «certa impressão de aldeia», partilha percursos, visões e miragens. Moradora em perpétuo trânsito que sonha mudar a casa para outra rua. (entrevista concedida a Margarida Caetano, da revista Destak.PT)
Por onde anda, durante o dia? Se estiver em tournée, a dormir. Quando estou em lisboa tenho sempre muitas coisas para fazer. Geralmente, faço ginástica, vou para o estúdio ou para teatro (se tiver algum espectáculo), canto e volto a dormir.
Já cantou em 38 países e está habituada a muitas ruas. As de Lisboa são diferentes? As ruas de Lisboa falam a minha língua e isso é suficiente para as tornar logo diferentes. E são sinuosas e têm becos e vielas e levam a largos e pátios que lhe dão uma certa impressão de aldeia.
Uma aldeia com muito trânsito e muitos carros… Como nunca tirei a carta e não sei conduzir, não me enervo no trânsito. Quem leva a minha filha ao colégio é o pai, por isso eu estou livre até desse ritual diário.
Quando passeia, tem algum percurso de eleição? Ah, adoro ir para a Baixa e para Alfama a pé! Mas a minha zona preferida é a da Sé, aquele pedaço da Igreja de Santo António: não sei explicar, não sei se tem a ver com o facto de ter sido erguida sobre a casa onde se diz que ele nasceu, mas há ali qualquer coisa, uma energia muito forte e boa, que vem da pedra. Acho que é um lugar mágico dentro da cidade.
Lisboa potencia sensações esotéricas? Não sei se esotéricas, mas sem dúvida que estas sete colinas têm muita força. Lisboa é uma cidade luminosa, cheia de referências e murmúrios do passado. Digamos que sou viciada em consumir com ela todos os bocadinhos livres que me sobram para deambular.
De que ângulo Lisboa lhe parece uma cidade mais bonita? Vista do ar, Lisboa é uma visão maravilhosa, seja na chegada, na partida, a que hora for. É um território abençoado. Até na luz que recebe: tem assim uma espécie de Primavera que lhe dura o ano inteiro.
O que é que uma casa tem de ter para aspirar a ser sua? Um quintal! Para a minha filha poder ter um cão. Além do mais, acho que estar ao ar livre é a coisa melhor que há: poder estar em casa na rua. E isso eu não tenho. Tenho só uma varandinha, onde pus umas plantinhas, mas não tem nada a ver.
Mudar de casa é uma decisão para adiar ou para apressar? É uma vontade muito antiga que o trabalho me obriga a adiar. Mas a verdade é que ainda não fiz nada para realizar esse sonho: morar numa Lisboa que me diga mais ao coração. Assim sendo, não me posso queixar, porque nem me coloquei à procura.
Traz alguma zona da cidade “debaixo de olho”? Lisboa sempre me soou encantadora na Graça, na Bica, no Bairro Alto. É aí que, para mim, ela é uma cidade de verdade, próxima do que um lugar para morar deve ser. Mas também não me importava de morar em Belém.
Um bom momento em Lisboa é passado a… … em casa, à volta da mesa, em família. O meu marido cozinha muito bem. Não somos de coisas muito elaboradas, mas gostamos de nos reencontrar à mesa. Ou na salinha onde tenho o meu piano e posso ensaiar ou organizar papeladas acumuladas entre viagens.