Friday, August 10, 2007

Não muito distante

MyleneO Brasil do século XX virou as costas para a cultura portuguesa. Era, talvez, a forma naturalmente encontrada pelos intelectuais de reafirmar a independência de uma nação brasileira que então dava seus primeiros passos. A década de 1930 talvez seja aquela na qual a ruptura tenha sido mais fortemente sentida - é a época na qual a literatura brasileira, por exemplo, passou a influenciar os escritores lusitanos, em uma inesperada reação da ex-colônia americana que depois se expandiria à música e, mais recentemente, à produção audiovisual. Infelizmente, tal movimento de ignorância crescente à produção cultural portuguesa é fruto tão-somente de uma espécie de revanchismo colonial - que fez os intelectuais latino-americanos afastarem-se, por algum tempo, do que se fazia na Espanha, por iguais razões - somado a um preconceito irracional dos brasileiros com relação ao léxico e à prosódia do português falado na antiga metrópole. Uma pena, pois Portugal é hoje um dos países europeus de produção cultural mais rica e instigante, voltado para o futuro sem o abandono do rico passado - um erro histórico cujas más conseqüências outros países europeus já começam a sentir.

A literatura portuguesa ainda freqüenta as prateleiras de nossas livrarias - graças às proezas de um Saramago, primeiro prêmio Nobel em literatura de língua portuguesa -, mas a música produzida em terras lusitanas ainda é solenemente ignoradas por nossas rádios e emissoras de televisão. Nas últimas décadas, apenas um grupo musical português parece ter alcançado relativo sucesso no Brasil - a ponto de motivar a edição de uma antologia composta exclusivamente para o mercado brasileiro -, ainda assim um sucesso que é mais mensurável por sua inevitável lotação esgotada nos concertos que aqui fizeram que, propriamente, pela presença na mídia. O Madredeus - com sua música atemporal, fincada na tradição mas moderníssima em sua concepção - ganhou fãs ardorosos de sua música no Brasil e algumas releituras interessantes de suas canções, de artistas como Rebeca Mata e Zizi Possi. Não seria exagero dizer também que o sucesso do Madredeus no Brasil, a partir dos primeiros anos da década de 1990, motivou a vinda de outros grandes músicos portugueses - gente da qualidade de uma Dulce Pontes, de uma Mariza, de uma Né Ladeiras - e o interesse de músicos brasileiros pela nova música que surgia naquele país que até há pouco era apenas uma metrópole distante, cujo traço cultural mais forte para os brasileiros residia em seu folclore e sua ruralidade pitoresca.

MyleneSe o Brasil devia à música de Portugal algum tributo, este foi bem pago pelo surgimento de Não Muito Distante, álbum da cantora e compositora Mylene Pires. Ela usa sua voz suave, encorpada e tão brasileira à serviço de dezesseis temas do Madredeus, abrangendo todas as fazes desses vinte anos de carreira da banda portuguesa mais conhecida em todo o mundo. Apesar de ser um álbum de regravações, o trabalho de Mylene é surpreendente: a cantora não se limita a reproduzir os arranjos primorosos do Madredeus, tampouco se prende às influências dos vocais de Teresa Salgueiro, ou tenta imitar alguma alma portuguesa que se encontra com facilidade nessas canções. O trabalho de Mylene é, deliberadamente, de recriação: ela encontrou, em cada canção do Madredeus, suas raízes brasileiras - já presente na música ou sugerida pelo espírito das letras ou pelos temas. Assim, a Oxalá bossanovista de Pedro Ayres Magalhães transforma-se em um candomblé suave, a emblemática O Pastor torna-se um forró melodioso e a belíssima Haja o que Houver ganha sonoridades de folia de reis. Nada, em suas recriações da obra do Madredeus, é óbvio ou gratuito. As canções tão conhecidas dos fãs do Madredeus ganham um frescor novo nessas sonoridades tão brasileiras, e a sensação que se tem é a de que A Andorinha da Primavera sempre fora uma marchinha carnavalesca à anos 1920, ou que A cantiga do Campo era um ijexá trazido às nossas fazendas de café pelos antigos escravos… Tudo é surpreendente - e belo.

Se para o fã do Madredeus uma primeira audição desses temas é um misto de estranhamento e excitação, a sensação que resta depois de algumas audições é de puro encantamento. Afinal, como explicar que soem tão bem O Pomar das Laranjeiras em ritmo de samba-canção ou O Menino - talvez uma das mais intrigantes faixas do álbum - cantado por um coral guarani acrescido das vozes rascantes de rezadeiras nordestinas? Não muito distante é um álbum de redescobertas - das letras bem construídas e das ricas melodias dos portugueses do Madredeus, da sonoridade da música brasileira, das raízes comuns entre os dois países que tanto tem em comum.

Infelizmente, como estamos em um Brasil que ainda se volta de costas às suas origens - tanto lusitanas quanto latino-americanas -, o álbum de Mylene, inteiramente gravado no Brasil, ganhou edição apenas em Portugal, que está a recebê-lo como uma das grandes novidades do ano. Oxalá a voz de Mylene consiga atravessar o oceano de volta ao lar e que aqui encontre a acolhida que merece. Pois, além de fazer um excepcional trabalho de recriação da obra de um dos mais instigantes grupos musicais de Portugal, a voz de Mylene é afinada, doce e deliciosa de se ouvir.

Posted by Frizero at 13:03:29
Comments

6 Responses to “Não muito distante”

  1. Anonymous says:

    Não entendi direito se esse seu texto é humoristico, ou talvez com uma pitada de cinismo, mas dizer que essa banda “Madre Deus” teve sucesso no Brasil é forçar a barra. Sinceramente nunca ouvi falar dessa banda portuguesa e nem escutei em rádio alguma, e olha que eu adoro escutar rádio. Entendo e respeito o fato de que você goste de música portuguesa, mas francamente, esse tipo de música não tem nada a ver com o Brasil e não tem nada a ver com xenofobia ou preconceito. Veja por exemplo a música italiana que sempre tem algum artista fazendo sucesso aqui no Brasil (Laura Pausini, Tiziano Ferro etc…) e você pode se perguntar o porquê disso? A resposta é simples: a música italiana tem um romantismo que contagia os brasileiros e que grande parte da população adora. Em resumo: música portuguesa, em geral, é dêpre total e não tem nada a ver com o Brasil.

  2. Frizero says:

    Meu texto não é, definitivamente, humorístico.

    Creio que uma banda estrangeira que não toca nas rádios e pouco apareceu nas emissoras de televisão brasileiras, e que consegue lotar todos os espetáculos que faz no Brasil pode, sim, ser considerada um sucesso no país. Não falo nessa medida de sucesso que leva em conta a exposição nas rádios, pois é mais que conhecido o esquema de divulgação de música nas rádios do país - o famoso “jabá”, denunciado não faz muito tempo por uma grande banda de rock brasileira na matéria de capa da revista BIZZ. Toca nas rádios brasileiras quem paga um “por fora” para os donos das rádios - e não as melhores bandas, as mais talentosas amigo.

    Dizer que a música e a cultura brasileira nada tem a ver com o Brasil é um argumento fraco - somos mais portugueses que podemos imaginar, ou querer aceitar, talvez, dentro de nossos preconceitos de ex-colônia. Ouça o álbum de Mylene que resenhei - se é que a cantora conseguirá vencer os interesses das grandes gravadoras e lançá-lo por aqui - em meu texto e verás como as proximidades são inúmeras, enormes.

    O sistema musicla brasileiro é dominado pelo interesse das grandes gravadoras, e quase a totalidade delas tem sede nos EUA. Por isso, a avalanche de música em inglês que ouvimos no Brasil. Tudo gira em torno do interesse comercial, amigo, e não em relação a talento, qualidade ou sucesso legítimo. O povo tem acesso ao que eles querem que o povo tenha acesso. E há inúmeras maneiras de fazer isso: desde incluir a música como tema de novela a fazê-la tocar tantas vezes na rádio que o ouvinte passe a encarar aquilo como um sucesso incontestável. Mesmo os ótimos cantores italianos que citaste só chegaram aos ouvidos brasileiros por interesse das gravadoras - e elas costumam rotular certas nacionalidades ao ponto de te referires à música italiana como “romântica”; será que na Itália só se produz música romântica? Lá não há rappers, disco, techno, folk? Há, e de qualidade - mas dentro do catálogo das gravadoras, Tiziano Ferro e Laura Pausini representam os “italianos românticos” e o dia que eles resolverem gravar algo muito diferente disso, talvez não sejam mais divulgados pelas gravadoras com tanto interesse.

    Era isso, “Anônimo”. A frase “música portuguesa, em geral, é deprê total” soa estranha para mim - talvez estejas resumindo música portuguesa ao fado, e a certo tipo de fado, porque nem mesmo o fado se limita apenas a “músicas deprê”. Portugal é hoje um dos países europeus com cenário musical mais rico e inovador - sem se limitar a seguir os modelos norte-americanos. Convido-te, “Anônimo”, a conhecer um pouco mais os músicos portugueses e até mesmo o Madredeus, que de depressivo, não tem nada.

  3. Frizero says:

    Correção: “dizer que a música e a cultura portuguesas não tem nada a ver com o Brasil”, no terceiro parágrafo. Repeti “brasileira” e “Brasil”.

  4. Rodrigo says:

    Bom para o colega que escreveu o primeiro comentário.
    Realmente o MADREDEUS, não é muito difundido na televisão e no radio brasileiro,por causas muito simples, não é um grupo com apelo comercial , e sim cultural, o Madredeus , não é bem o estilo de musica que vende pra grande maioria dos consumidores que compram modismo, e sim para apreciadores de arte e boa musica, e como já esclareceu o autor do texto no seu comentário acima , todos os espetáculos que o grupo realizou no Brasil houve lotação mesmo com uma propaganda inexpressiva nos principais meios de comunicação.
    Quantos as musicas sim tem um toque de melancolia, devido a influencia do Fado,mais essa melancolia não significa depressão como você insinuo.
    O Brasil e os brasileiros tem na verdade que se desprender do casuísmo e de seguir tendências impostas por mercado e começar a conhecer e apreciar cultura e arte, ver e escutar realmente coisas que gostam seja elas de onde vierem, seja de Portugal seja do Brasil, seja da Itália, etc,o que importa realmente é ter bom censo e claro que nenhum estilo vai agradar a todos.
    Brasil por menos que queira admitir é filho de Portugal, nossa historia está intimamente ligada a historia de Portugal, da língua a costumes e tradições, somos herança portuguesa.

  5. Dona do Blog says:

    olá rodrigo,
    Escuto MadreDeus há muito e, sempre que sinto falta deles, procuro por eles na internet em busca de novidades. Dentre essas, achei o seu blog. Gostei muito da sua resenha sobre Mylene Pires. Irei escutá-la.
    Sobre sua resenha sobre música portuguesa e brasileira, concordo com você plenamente. Comecei a gostar de MadreDeus desde os meus 19 anos, quando eles fizeram um show em minha cidade, Belém (PA), que não esquece suas raízes portuguesas. Lá se toca MadreDeus na rádio. Apenas em uma, pertencente ao Governo do Estado, Rádio Cultura do Pará. O show aconteceu num tempo em que a internet começa a despontar no Brasil e, mesmo assim, o show lotou. Atualmente, se não fosse a “santa” internet a me informar sobre o que existe de interessante no mundo da música (sem Nelly Furtado, sem Zezé diCamargo e axés baianos, “pagodinhos” depressivos, etc) eu continua a procurar coisas diferentes, mas a velocidade seria consideravelmente reduzida. Ou talvez ainda estaria dependendo da rádio da minha cidade…
    Infelizmente, ainda existem alguns brasileiros que possuem este revanchismo contra Portugal que está a ensinar para o mundo que devemos nos orgulhar de nossas raízes e preservar o passado, mas sempre a olhar para a frente.
    Seu blog foi adicionado.
    Abraço,
    Rejane.

  6. Frizero says:

    Dona do Blog,
    obrigado pela visita e pelo depoimento. A Internet é, sem dúvida, uma poderosa ferramenta para fugirmos da programação pré-decidida pelas grandes gravadoras e que invade nossas rádios e tevês.

    Conheci o Madredeus por acaso, em 1993, quando visitava Portugal. Um amigo português mostrou-me “Os Dias da Madredeus” e o som pareceu-me tão inovador que tive que comprar tudo o que eles tinham então editado (seus três primeiros álbuns). De lá para cá, a paixão só aumenta - sobretudo depois de tê-los visto por duas vezes ao vivo, de ter falado com eles pessoalmente. São músicos fantásticos e pessoas incríveis.

    Um abraço portoalegrense,
    Beto

    P.S.: Meu nome não é Rodrigo - é o nome do outro colega que concordou conosco… :)

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