Madredeus: o novo despertar
As crises têm feito bem aos Madredeus. Quando, em 1996, os fundadores do grupo ficaram reduzidos a Pedro Ayres Magalhães e a Teresa Salgueiro com as saídas do violoncelista Francisco Ribeiro e do acordeonista Gabriel Gomes (Rodrigo Leão já tinha deixado o projecto dois anos antes) temeu-se o fim de que se falava há algum tempo. Ele não aconteceu e Pedro Ayres Magalhães reinventou os Madredeus num novo formato instrumental, mais angelical, sem violoncelos ou acordeões (mas com a novidade do baixo acústico). Em dois álbuns, “O Paraíso” e “Movimento”, a coisa rendeu.
A especulação sobre a morte dos Madredeus regressou quando Teresa Salgueiro anunciou a sua saída do projecto, onde esteve praticamente duas décadas. Mas o vaticínio mais pessimista voltou a falhar, o que tinha acabado era apenas mais um ciclo. Pedro Ayres Magalhães tinha outro coelho da cartola para tirar, um imprevisível acasalamento entre os ritmos lusófonos afro-brasileiros e um tipo de rock mais sinfónico, como mostrou o penúltimo álbum “Metafonia”.
Como a lógica matemática da multiplicação entre parcelas negativas que equivale a um resultado positivo, os males dos Madredeus têm servido para debelar outros males e dar a volta por cima. Aquilo que era uma sensação de abismo e de impossibilidade de ultrapassar a grandiosidade das três primeiras obras discográficas (em 1995-96), foi revolvido com outro mal, as várias saídas internas, e com a consequente urgência de uma renovação que Ayres Magalhães conseguiria engendrar. E aquilo que era a meio desta década um problema de desgaste e de esvaziamento dentro da música dos Madredeus teve a sua luz súbita com o adeus de Teresa Salgueiro e com a obrigação de uma nova remodelação.
Tão estranho quanto o actual corpo dos Madredeus (que com A Banda Cósmica se tornou num bizarro decateto que vai da guitarra eléctrica e bateria à harpa e a duas vocalistas) é a rapidez invulgar com que o grupo lança novo álbum de originais, apenas um ano depois do anterior “Metafonia” - só por uma vez isso aconteceu antes, em 1994-95, com os álbuns “Espírito da Paz” e a banda sonora “Ainda”.
Mesmo dentro deste novo ciclo sem Teresa Salgueiro, notam-se diferenças grandes entre “Metafonia” e “A Nova Aurora”. O primeiro, do ano passado, era mais amulatado e transcontinental; o segundo, “A Nova Aurora”, é claramente mais europeizado e menos rítmico.
No resto, o novo disco é a confirmação de que esta é a fase mais surrealista do grupo, possivelmente pouco empática para o seu público tradicional. Filosoficamente inspirada na génese do universo e do ser humano, “A Nova Aurora” é uma comunhão entre os teclados new age de Carlos Maria Trindade (que está em grande plano neste álbum), o virtuosismo do rock progressivo e a sonoridade world-pop dos Madredeus.
“A Nova Aurora” é de uma beleza menos insinuante, de uma ternura menos ostensiva. O álbum funciona por deixas, numa forma tímida mas irreverente. Há uma recuperação de um espírito rebelde que estava um pouco morto nos demasiado institucionalizados Madredeus. E recupera-se uma alma aventureira no grupo de Pedro Ayres, com um rock provocadoramente desacelerado, que só é contrariada pelo risco calculado de se ter duas cantoras com tonalidades vocais puras de cristal demasiado semelhantes a Teresa Salgueiro.
Pedro Ayres Magalhães voltou a inventar um novo som. Apesar do défice de grandes canções e de grandes momentos, a sua ideia está mais explícita neste disco, mesmo que continue a parecer extraterrestre.
Gonçalo Palma - publicado pelo Cotonete.pt
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20:00:20
Olá amigos,
como posso comprar o cd A Nova Aurora no Brasil?
Aguardo ansioso.
Abraços,
Murilo.