À Sombra da Memória
Em tempos nos quais alguns escritores louvam-se a si mesmos por não terem quaisquer ligações com o passado, À Janela da Memória surge como uma esperança nova.
Este primeiro trabalho de Sérgio Freitas é repleto de razões para o encantamento do leitor. O autor é poeta e fotógrafo, aprendiz em duas artes nas quais ninguém jamais é mestre e sempre há o que se cultivar, o que se aprender e reinventar. Esse talento multifacetado oferece nuances que tornam o trabalho de Sérgio Freitas algo único em nossa geração tão acostumada a respostas rápidas e vazias, a uma vida célere e quase sempre pobre de sentido.
Em Sérgio Freitas, o poeta raramente é um narrador. Sua poesia é composta de breves olhares sobre a experiência humana – não por acaso, as paisagens e objetos em sua poesia pairam ao redor dos sentimentos, como se suspensas no momento da escrita para que se possa penetrar com mais leveza nessas sensações indizíveis que a alma sente e não explica jamais. Por isso o ritmo de sua poesia é apenas sugerido, nunca marcado ou imposto, mas está lá, presente – é como um pulso que só sentimos quando nele prestamos atenção absoluta, mas que sustenta a vida e sem o qual tudo desmoronaria.
São poemas que sugerem, instigam, sem jamais dar respostas – algo que, enfim, jamais coube à poesia fazer. Por isso há esse interlocutor em diversos poemas, esse “tu” indefinido com quem o eu-lírico dialoga constantemente: é o poeta vivo e, a um tempo, sua própria alma que ele imagina ausente; é também a alma do leitor, que acompanha esses momentos em suspensão como quem se deslumbra com a imagem captada por uma câmera etérea feita de palavras. O fotógrafo Sérgio Freitas, por sua vez, faz poesia partindo das sutilezas presentes nas imagens que capta. Com um olhar de poeta, percebe, no mais estático cenário, todos os momentos que por ali transitaram, o passado ali contido, que jamais lhe escapa ao sentimento. Em suas janelas isoladas, sem a interferência humana, vêem-se multidões de rostos e de histórias de vida que por ali passaram. Ele convida-nos a debruçarmos nossas lembranças onde outros tantos, que por ali estiveram, fizeram o mesmo; mirando as mesmas paisagens de outrora, ou vendo através daquelas janelas panoramas da nossa própria alma, repensamos a fragilidade da vida e seu caráter passageiro.
À Janela da Memória é a esperança nova de que está a se consolidar uma nova geração de artistas que, como Sérgio Freitas, sabe que não se constrói um ser humano em plenitude simplesmente ignorando o pretérito, esquivando-se da memória ou fingindo-se fruto de uma contemporaneidade que se torna passado também, a cada dia. Seus poemas de instigantes imagens e suas fotografias carregadas de lirismo são convites ao leitor para que conheça não só a si mesmo um pouco mais, mas também esse artista de talento que as Letras Portuguesas ganham com o lançamento deste livro.
Robertson Frizero Barros
*O livro “À janela da Memória”, de Sérgio Freitas, será lançado em 05 de outubro de 2007, na cidade do Porto, Portugal. O autor é conhecido dos fãs do Madredeus por seu trabalho de divulgação do grupo em websites como Madredeus - O Sonho e Teresa Salgueiro - Alma e Voz. Ele também mantém um blog com fotografias e textos, o Superlativo Relativo Sintético. [veja links no menu ao lado]
**Clicando na imagem, pode-se acessar o site da editora. “À Janela da Memória” também estará à venda, a partir de 05 de outubro de 2007, no site da FNAC.pt e em livrarias da grande Porto, Portugal.